01.EXT. MORRO DO TALARICO, BECO- NOITE.
Jade se
encontra de mãos para cimas à espera de alguma ação. Desesperada
e ofegante.
BANDIDO
Baixa a arma, mano! Baixa a arma.
MAURÍCIO
(Por cima)
Vamos resolver isso de uma forma pacífica. A gente não precisa
machucar ninguém.
BANDIDO
Já falei pra baixar a arma.
Jade olha para
Maurício que discretamente assente com a cabeça e sussurra "vai". Jade espera um pouco e
em seguida corre em direção à polícia, instantaneamente uma troca de
tiros acontece.
Maurício rapidamente faz a guarda de Jade e a agarra,
fazendo-a correr em direção ao carro da polícia. Ela adentra e depois ele.
O carro sai em
disparada.
02.INT. GALPÃO- NOITE.
E um dos
agiotas dá mais um chute em Juliano, que já estava no chão,
completamente machucado e sangrando.
AGIOTA
Isso é pra tu aprender a não brincar com quem não tá de brincadeira. Presta atenção, isso aqui foi só um recado.
Amanhã, as doze e meia, se você não aparecer com meu dinheiro, se você estiver aqui com ele...
O agiota faz
sinal que vai atirar com a arma. Deixa Juliano no chão e segue com a moto.
03 EXT. CASA DE
MEL-NOITE.
Laís e Ricardo acabam de sair da casa. Ricardo sorri.
RICARDO
Obrigado.
LAÍS
Imagina. Eu que tenho que te agradecer. Até que enfim um homem com coragem pra aguentar minha irmã, literalmente.
RICARDO
Gosto muito da Mel.
LAÍS
E você já teve outras namoradinhas?
RICARDO
Nenhuma que valesse tão apena.
LAÍS
Você pretende mesmo ser somente de uma
pessoa?
RICARDO
A gente tem que
ficar com quem ama.
LAÍS
Você ama a Mel?
RICARDO
Tenho um apreço.
LAÍS
Não é amar.
RICARDO
Estou aberta a alternativas.
LAÍS
Com tanto que eu não seja a última delas.
04 EXT. CARRO,
ESTRADA- NOITE.
Maurício dirige cuidadosamente. A estrada está lisa por conta da garôa que está dando. Jade se
encontra no banco da frente, com a cabeça recostada na
janela.
MAURÍCIO
O que deu na sua cabeça para achar que podia se enfiar em uma favela como se
fosse numa matinê pra menores de idade, menina?
JADE
Eu não sou menor. E você não tem nada a ver com a minha vida.
MAURÍCIO
Eita, mas eu te fiz um favor e é assim que me agradece?
JADE
Não te pedi nada. Eu iria me livrar
sozinha.
MAURÍCIO
Hum..
JADE
Ai, quer saber? Para o carro! Eu quero descer!
MAURÍCIO
Cê tá louca. Vai ficar aí até eu te levar pra casa.
JADE
Eu não te conheço! E ninguém manda em mim!
Jade agarra o volante e os dois
brigam pelo volante. O carro sai ziguezagueando na pista molhada.
Maurício acaba perdendo o controle e o carro,numa fração de segundos, bate no poste.
Em Jade e Maurício. Sem ferimentos graves.
MAURÍCIO
Olha o que fez...
JADE
Falei pra parar o carro...
Jade abre a porta do carro e sai
andando. Maurício, inconformado, também sai e verifica o estrago do caro. Colocando a mão sobre a cabeça.
MAURÍCIO
(Raiva)
Você é louca!
Completamente maluca!
Jade, ainda caminhando, grita.
JADE
Vai se lascar!
MAURÍCIO
Olha aqui, eu poderia te prender por isso!
Jade dá dedo à Maurício. Segue.
Maurício pensa ir atrás, mas desiste,
e de raiva chuta o pneu do carro, que acaba disparando o alarme e a sirene.
MAURÍCIO
Ai que ótimo!
05 INT. CONSULTÓRIO-NOITE.
Miguel está deitado sobre uma poltrona reclinável, enquanto o psicólogo anota algo numa agenda.
PSICÓLOGO
Como já lhe disse, o diagnóstico foi dado há algum tempo.
Agora, Miguel, me responda, como você está lhe dando com isso? Como você sabe, o demirromantico é um tipo de romântico da área cinzenta que sente atração romântica somente depois de já desenvolvida a conexão emocional. Os demirromânticos não sentem atração romântica primária, mas são capazes de
sentir atração romântica secundária. O homólogo sexual do demirromântico é o demissexual, ou seja, essas
pessoas têm uma dificuldade maior de se
apaixonar, de se relacionar e se entregar por um inteiro à uma relação. Tem que
haver um vínculo emocional muito forte que
ligue você à outra pessoa.
MIGUEL
Eu só me apaixonei uma vez na vida, que
foi pela Laura, mas ela me abandonou e...
PSICÓLOGO
E você voltou a estaca zero. Miguel, eu
aconselho que você tente gostar de outra pessoa, criar
um vínculo.
MIGUE
Você acha que eu já não tentei? Nem com a minha própria filha eu me dou bem. Não sabe o quanto é difícil pra mim viver assim. Essa coisa que não sai de mim nunca. Eu não vou conseguir me apaixonar nunca! Eu vou viver
sozinho...
PSICÓLOGO
Não é algo que se pode evitar. Tenta se relacionar, ter
filhos...
MIGUEL
Não posso... Não posso mais, fiz vasectomia pouco depois de resolver
fazer uma doação voluntária de esperma. Eu não posso gostar de ninguém, eu não consigo e
talvez... Talvez nunca vou conseguir novamente.
PLANO AÉREO. Foco no rosto de Miguel, cheios de lágrimas.
06 INT. HOTEL,
BAR- NOITE.
Leandra se encontra no bar de um
hotel tomando um drink. Distraída em seus pensamentos. Até que alguém se senta ao
seu lado.
LAERTE
Se importa?
LEANDRA
Não, eu não...
Leandra olha para o rosto de LAERTE
e fica pálida. Acaba derrubando o copo no chão.
LAERTE
Calma, o que é que foi?
LEANDRA
O que você está fazendo aqui?
LAERTE
Se assustou, né? Não tem como fugir do passado, Leandra. Ele sempre volta
par nos assombrar.
LEANDRA
Não sei do que você está falando.
Leandra levanta-se, desnorteada, mas
Laerte segura seu braço.
LAERTE
Eu posso refrescar sua memória sobre aquele servicinho que você me pediu pra fazer. Que feio, Leandra, eu que fiz a
sua inseminação artificial, coloquei no mundo um
filho seu e do...
Leandra tapa os ouvidos. Grita.
LEANDRA
Para, para, para!
Ela espreme os olhos.
FLASHBACK ON.
Leandra, vestindo um grande casaco
preto, que esconde seu rosto. Carrega uma cesta nas mãos, olhando para os lados, perturbada.
Ela caminha até uns sacos de lixo bem próximo de um ponto de ônibus e deixa a cesta lá.
Revela que há um bebê dentro. No
momento, dorme.
Um barulho de trovões ecoa no céu nublado de
noite. Ela olha para o bebê e sai correndo do local.
FLASHBACK OFF.
Leandra agarra a mão de Laerte subitamente, sua voz soa grave.
LEANDRA
Não! Ninguém pode saber que eu fiz inseminação, que aquele sêmen era do
Miguel, ninguém, entendeu? Ninguém...
Ela respira, ofegante e
transtornada.
A cena congela.



