01.
EXT. SÃO PAULO, AUGUSTA- DIA.
SLOW MOTION. Pessoas
andando. Muitas. CAM exibe em câmera lenta seus passos largos e o que respectivamente
fazem; carregam sacolas, maletas, bolsas, mochilas nas costas.
Gente de todo tipo, de toda
forma, se misturam.
ALGUÉM
(V.O)
Destino;
a desculpa mais esfarrapada que o ser humano encontrou pra pôr a culpa que
sentem algo inexplicável, invisível. A inexistência só prova que quando as
coisas têm que acontecer, elas simplesmente acontecem. O destino é só uma
meia-verdade descrita por sei lá quem, em sei lá que ano. As coisas acontecem,
e isso é uma verdade inevitável.
CORTE RÁPIDO PARA.
02. EXT. EMPRESA DELLAFRANCO- DIA.
PLANO AÉREO de toda a
extensão da empresa e seu prédio respectivamente.
03. INT. EMPRESA DELLAFRANCO, SALA DE REUNIÕES-DIA.
Alguns dos acionistas da das
empresas DELLAFRANCO estão presentes na sala imensa e luxuosa da empresa. Ao
fundo, há uma imensa parede de vidro que dá uma visão ampla de toda a cidade.
MIGUEL DELLAFRANCO (30)
desaba na cadeira, transtornado. Ele afrouxa a gravata. Sua secretária, AVA
(20) lhe dá um copo com água, da qual engole tudo de uma vez.
MIGUEL
Como
assim não vou poder assumir as empresas do meu avô? Isso é algum tipo de
brincadeira?
AVA
Calma
chefe...
ADVOGADO
De
forma alguma senhor Miguel. A cláusula de posse das empresas que seu avô, Toni
lhe deixou é bem clara. Não receberá um real da herança a menos que se case
Miguel salta da cadeira com
a notícia.
MIGUEL
Casar?
ADVOGADO
Exatamente,
casar.
MIGUEL
Então
é só casar que todo o patrimônio do velho, quer dizer, do meu avô será meu,
certo?
ADVOGADO
De
certo que sim.
MIGUEL
Então
ótimo, se é pra casar, eu providenciarei isso o mais rápido possível. Ava...
AVA
Sim
senhor. Entendido.
ADVOGADO
AH,
há um porém!
MIGUEL
Mas
outro?
ADVOGADO
O
casamento será com uma pessoa específica.
MIGUEL
Pessoa
específica?
ADVOGADO
Sim.
Terá que se casar com o último descendente da senhora Eleonor Barcellos.
MIGUEL
Peraí,
essa Eleonor por acaso seria a mulher com quem meu avô quase se casou antes da
minha avó? Ele já me contou sobre ela.
ADVOGADO
Exatamente.
MIGUEL
E
quem seria essa pessoa?
ADVOGADO
Na
cláusula não diz.
MIGUEL
Ah,
que ótimo. Terei que me casar com uma pessoa que não sei quem é. Tudo porque
aquele velho caquético resolveu dar uma de Deus e brincar com a vida das
pessoas. Ava, descobre pra mim quem é essa pessoa ainda hoje, entendido?
AVA
Entendido.
Ava sai andando rapidamente. Miguel esfrega sua cabeça,
preocupado. Ava volta.
AVA
Senhor,
nós não conseguimos encontrar sua filha, Jade.
MIGUEL
Era
só o que me faltava. Onde será que se meteu essa garota?
Miguel urra.
04. INT. APARTAMENTO- DIA.
Silêncio.
PLANO AÉREO.
Apenas duas pessoas deitadas
num colchão de casal jogado no chão do apartamento sem nenhum móvel ou qualquer
coisa que ocupasse espaço.
JADE e outro rapaz. Ela está
apenas de lingerie. CLOSE-UP em seu rosto. Ela abre os olhos. Levanta-se,
atordoada e vê o rapaz no colchão.
= = CORTE DESCONTÍNUO = =
Jade, já vestida, vai até
onde a calça do rapaz está jogada e mexe no bolso, tirando de dentro a chave do
carro dele. O Rapaz acorda e se surpreende.
RAPAZ
Ei,
você!
Jade arregala os olhos e sai
correndo para fora do apartamento com as chaves em mãos. O rapaz sai correndo
atrás dela, apenas de cueca.
SONOPLASTIA:
What The Hell- Avril Lavigne
Eles correm pelos
corredores. As pessoas que vão passando olham para a cena.
RAPAZ
Volta
aqui, garota!
Jade adentra no elevador e
aperta freneticamente os botões. O Rapaz vai chegando perto, mas o elevador vai
se fechando. Jade sorri e dá um “tchauzinho” para ele. O elevador se fecha
completamente.
05.EXT. APARTAMENTO- DIA.
Jade acaba de sair do hotel
e vai em direção a um carro Ford Galaxie 500 aro 22. Ela adentra.
O rapaz sai correndo do
hotel, ainda de cueca. Jade se apressa, gira a chave e dá partida. Rindo. O
rapaz corre um pouco atrás do carro, mas acaba ficando para trás. Jade põe a
cabeça para fora da janela, dá dedo e grita.
JADE
Otário!
Dirige na maior velocidade,
rindo dos gritos do rapaz.
06. EXT. CLÍNICA-DIA.
Toca ao fundo, MAIOR- DANI
BLACK.
Vários dos pacientes estão
tomando sol no vasto jardim da clínica, com vários enfermeiros vestidos de
branco com eles.
JULIANO BARCELLOS (22) se
agacha e fica olhando para uma senhora de idade numa cadeira de rodas. Ela
parece não reconhecê-lo.
JULIANO
(Sorri)
Oi
mãe.
ANGELA
Mãe?
Quem? Você está perdido?
Juliano segura o choro e
aperta a mão de Angela.
JULIANO
Fico
feliz em saber que a senhora está bem.
ANGELA
Sabe
qual é meu nome, criança? Eu não sei... Esqueci. Quem é você mesmo? Porque está
aqui? Tá perdido? Ah, lembrei, você é moço bonito daqui. O jardineiro... Ou
será que é o médico?
JULIANO
Ah,
mãe...
DIRETOR
Senhor
Juliano Barcellos.
Juliano olha o diretor da
clínica com receio e medo.
DIRETOR
Queira
me acompanhar, por favor.
Juliano respira e olha
rápido para Angela.
= = CORTE DESCONTÍNUO = =
JULIANO
Só
espera um pouco mais, por favor.
DIRETOR
Faz
mais de um mês que o senhor não paga a clínica. Não temos como manter a dona
Ângela aqui.
JULIANO
Moço,
eu estou desempregado. Eu tô batalhando pra conseguir um emprego. Até dinheiro
de agiota eu peguei emprestado.
DIRETOR
Até
o fim da semana. Se não pagar até o fim da semana infelizmente teremos que
interromper o tratamento de dona Ângela.
Juliano limpa as lágrimas, assentindo.
07. EXT. RUA-DIA.
SONOPLASTIA: CRUEL- NINA FERNANDES.
CORTE ENTRE UM TAKE E OUTRO;
Juliano anda em várias lojas, entrega currículos, ouve as desculpas dos
gerentes. Tenta em limpeza, vendedor, servidor público. Nada. Ouve um não em
todas as tentativas.
Juliano senta-se num banco
da praça, riscando mais uma vaga no jornal.
JULIANO
Preciso
arranjar emprego até o fim dessa semana. Eu preciso. Minha mãe precisa, mas
está tão difícil.
Juliano respira e segue
andando, distraído com o jornal. Vindo de encontro a ele, o carro de Miguel
segue em alta.
Miguel acaba se distraindo
quando seu celular toca e perde o controle do carro.
Juliano segue devagar pela
pista ainda lendo o jornal, enquanto o carro desgovernado vem em sua direção.
Juliano percebe que estava prestes a ser atropelado, mas Miguel para o carro na
hora.
Os dois respiram ofegantes e
se encaram por um longo tempo.
JULIANO
Maluco!
E soca o capô do carro.
JULIANO
Louco!
Miguel faz descaso e acelera o carro que se, Juliano
não saísse do caminho, o tinha atropelado.
JULIANO
Maluco!
Arrogante!
Miguel, estressado não liga.
E olha o reflexo de Juliano parado na estrada assustado, enquanto o carro se
distancia ainda mais.
Miguel volta a dirigir
normalmente.
VOLTA em JULIANO.
JULIANO
Cara
abusado, mal educado. Também só arredo o pé daqui quando arranjar emprego.
Juliano balança a cabeça e
passa a andar.
08 INT. MANSÃO DELLAFRANCO- NOITE.
Miguel acaba de adentrar em
casa, batendo a porta. Jade levanta-se ao perceber.
JADE
Olha
só. Chegou o poderoso chefão.
MIGUEL
Porque
você faz isso? Some! Não diz pra onde vai... Quer saber, também não importa
mais. Eu não quero saber.
Jade se magoa, mas engole.
Miguel estava prestes a subir as escadas, mas para.
JADE
Não
liga porque só importa consigo mesmo, com dinheiro, poder.
MIGUEL
Você
é uma fedelha insuportável que só dá desgosto! Que moral tem pra me julgar?
JADE
Pelo
menos eu não afasto as pessoas de mim. Elas não têm medo de se aproximar. Todo
mundo corre de você. Mamãe morreu por sua causa!
MIGUEL
Não
fala da Laura! Você não tem esse direito!
Miguel agora parece
transtornado.
JADE
Conseguiu
afastar a mamãe sim, por conta da tua arrogância, dessa tua prepotência.
Ninguém é feliz com você porque você suga tudo de bom. Ninguém vai conseguir!
MIGUEL
Eu
não sei por que eu ainda te aguento. Eu já devia ter te mandado para um
internato há muito tempo. Eu não queria mesmo ter filho algum. Você foi um
imprevisto indesejado... Tai o resultado.
Os olhos de Jade se enchem
de lágrimas, mas continua com a cabeça erguida.
JADE
Eu é
que não queria um pai como você.
Miguel fica calado por
alguns instantes.
MIGUEL
Escuta...
Eu tô exausto. Eu quero descansar. A gente conversa amanhã.
Miguel sobe as escadas. Jade
senta-se no sofá.
JADE
Eu
não tenho nada pra falar com você.
MIGUEL
Melhor
então. Meu tempo é dinheiro.
Jade joga com força uma
almofada num vaso de vidro, que cai no chão e quebra. Ela grita.
09. EXT. RUA-NOITE.
Trovões e relâmpagos. Vemos
Juliano sentando num banco no ponto de ônibus, na chuva, ensopado, chorando.
Não conseguiu emprego.
TOCANDO CRUEL-NINA FERNANDES.
Juliano grita de desespero e
sua voz ecoa. Ouve-se o choro de um bebê. Juliano estranha.
JULIANO
Isso
é...
Juliano escuta mais uma vez e segue de onde vem o
choro.
Dá no meio de alguns entulhos, bolsas de lixo e
papelão.
Ele retira tudo e encontra um bebê, chorando. Olha os lados,
pega-o.
JULIANO
Ei,
ei... Ei...
Ele sorri para a criança e
tenta protegê-lo da chuva, embalando-o no seu corpo.
JULIANO
E
agora? O que é que eu vou fazer com você? O quê?
Juliano olha a criança,
preocupado.
A cena congela.
FIM DO CAPÍTULO.

